Comer sem culpa: Carne

Inspirar e não influenciar


Começo o texto com essa expressão acima do amigo e professor Mateus Paranhos (24/04/2021). Esse é o objetivo deste texto. Inspirar as pessoas a pensar e conhecer mais a fundo o assunto.

O brasileiro esta comendo menos carne?


Uma pesquisa de consumidor realizada no ano passado apontou que o Flexitarianismo (pessoas que reduziram o consumo de carne e outros produtos de origem animal) está crescendo no Brasil. De acordo com a pesquisa,  “esse novo hábito passou de 29% em 2018 para 50% em 2020” (GFI). Isso quer dizer que em, 2020 50% dos brasileiros disseram que estavam comendo menos carne. Será que essa mudança realmente esta acontecendo? Quais seriam os motivos que levaram os brasileiros a darem esta resposta? Será que eles estão realmente bem informados para tomarem essa decisão?

Fonte: https://gfi.org.br/wp-content/uploads/2021/02/O-consumidor-brasileiro-e-o-mercado-plant-based.pdf)

De acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab, 2021), um brasileiro consumia, em média, 94,6kg de carne (bovina/suína/frango) em 2015, quantidade que se manteve estável até 2018. Em 2019 houve uma redução para 92,8 kg (-1,8 kg ou -1,9%) e esse valor se manteve igual em 2020. Durante esse período, o consumo de carne bovina diminuiu (de 33,2kg em 2015, para 27,6kg em 2020), o de carne suína ficou praticamente estável (de 15,7kg em 2015, para 15,3kg em 2020) e o de frango subiu (de 45,8kg em 2015, para 49,9kg em 2020). Além dos dados do consumo de carne, vale ressaltar que o consumo de ovos pelos brasileiros subiu muito, de uma média de 191 ovos por ano por pessoa em 2015, para 230 em 2019 e 240 em 2020. Os dados refletem um menor poder aquisitivo da população, fazendo o consumidor migrar da carne bovina para carne de aves e também para o ovo, mas mantendo a proteína de origem animal na sua dieta. Desta forma, não parece fazer sentido que 50% dos brasileiros teriam reduzido seu consumo de carne, sendo que os dados reais de consumo mostram apenas uma pequena redução de 2015 para 2020 (-1,9%), e mesmo assim, essa redução se deu com o incremento de ovos na dieta (+25%, no mesmo período).

Fonte: CONAB.

Se você gosta de comer carne, mas parou de comer ou está pensando em parar de comer, pois se sente culpado de como a criação animal pode ser ruim para o planeta, ou que a carne é ruim para sua saúde, esse material, preparado com embasamento científico, vai te inspirar a estudar mais a respeito sobre o que realmente é verdade e o que é mito em relação ao consumo de carne.

Quais as razões para pensar em reduzir o consumo de carne? Será que elas são verdadeiras?

  1. Não gosto do cheiro ou sabor da carne (repulsa)

  2. Minha religião não permite comer carne

  3. Carne não me faz bem (pesada/indigesta para mim)

  4. Carne de baixa qualidade sensorial (dura)

  5. Sou contra o uso e abate de animais para benefício humano

  6. Teríamos mais alimentos para os humanos (fome do mundo)

  7. Economia – carne é cara (eu comeria se tivesse mais dinheiro)

  8. Faz mal para saúde (câncer/colesterol/doenças do coração)

  9. Carne causa envelhecimento precoce e inflamação

  10. Tem hormônio e isso faz mal

  11. Tem antibiótico e isso faz mal

  12. Desenvolve bactérias resistentes a antibióticos

  13. Carne transmite doenças (bactérias/parasitas/vírus)

  14. É responsável pelo desmatamento e queimadas

  15. Animais usam muita terra.

  16. Os gases liberados pelos bovinos aquecem o planeta

  17. A produção animal utiliza muita água

  18. Os animais poluem os rios e oceanos

  19. Animais são menos eficientes que as plantas em termos energéticos

  20. O trabalho no abatedouro é ruim

Nos próximos textos iremos detalhar cada uma destas razões.

1 - Argumentos quanto a Razões Pessoais

No primeiro grupo estão os argumentos que, para mim, são incontestáveis, pois se tratam de razões pessoais e não técnicas. Todos nós somos livres para escolher como viver, seja na forma de vestir, falar, socializar, escolher amigos e, logicamente, somos livres para comer o que gostamos e o que nossos preceitos permitem.
Para algumas pessoas a carne não é objeto gastronômico de desejo, como pode ser um chocolate especial ou uma fruta exótica. Outros não gostam do cheiro, do sabor e do aspecto da carne, seja crua ou já cozida/assada. Para alguns a carne não “cai bem” quando consumida. Isso também acontece com outros alimentos. Já ouviu relatos de pessoas que não ficam bem quando comem feijão ou tomam leite? Há ainda o caso de pessoas alérgicas/intolerantes a diferentes alimentos ou compostos que podem estar nos alimentos (amendoim e glúten por exemplo).
A religião também é um argumento relevante para a qual não deve haver discussão.
Assim, se você se enquadra nestas características, não tem jeito. Mas, se você não se enquadra nas características acima, aconselho que continue lendo este texto.

2 - Argumentos quanto ao Meio Ambiente

Será que produção animal, mais especificamente o arroto do boi, é o maior responsável pelo aquecimento do planeta, ou que os animais competem por nossa água, ou que os bovinos estão desmatando as florestas? Vamos explicar um pouco melhor a relação da produção animal e o meio ambiente.

2.1 Gases do efeito estufa

De acordo com a Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO, 2021), a produção de todos os alimentos do mundo é responsável por apenas 26% das emissões dos gases que causam o efeito estufa. Se carne é alimento, nem de longe é o principal emissor dos gases. Os maiores responsáveis são as indústrias, os meios de transporte e outras formas de geração de energia, que respondem por 74% das emissões dos gases do efeito estufa.


Mais especificamente, ainda de acordo com a FAO, retirando do número acima (26%), os alimentos de origem vegetal usados para alimentação humana, que correspondem a 12%, sobram apenas 14% que estão ligados aos produtos de origem animal. Destes, se retirada a parte que corresponde ao leite (3,4%), sobram 10,6%. Esse é o número que representa a responsabilidade da produção animal na emissão dos gases do efeito estufa. 


Pode-se afirmar, então, que a produção animal não é a principal culpada pela emissão dos gases do efeito estufa. Mas não é só a emissão de gases que precisa ser mencionada quando falamos de aquecimento global. Porque, na produção animal, que se baseia em um ciclo perfeito, quase todos os gases emitidos pelos animais durante sua vida (ex. metano e dióxido de carbono) são capturados novamente pela natureza, pelas pastagens ou outros vegetais, que serão depois transformados em alimentos. Esse ciclo pode mais bem entendido no trabalho recentemente publicado “Reduzindo os impactos climáticos da produção de carne: uma síntese de avaliações do ciclo de vida em sistemas de gestão e regiões globais” (Cusack et al, 2020). Os autores concluíram que o Brasil é o país com maior potencial para reduzir os impactos do aquecimento global utilizando a produção animal.


Isso tanto é verdade que hoje existem fazendas de bovinos que possuem pegada neutra de carbono e que, em breve, podem até se transformar em sequestradores de carbono, ajudando a reduzir os gases emitidos por outros setores industriais (energia, transporte, construção, tecnologia etc.). O boi passa de vilão a aliado no quesito aquecimento global. Veja o caso da Carne Carbono Neutro, projeto desenvolvido pela Embrapa. “A Carne Carbono Neutro (CCN) é uma marca-conceito, parametrizável e auditável, que visa atestar a carne bovina produzida em sistemas de integração do tipo silvipastoril (pecuária-floresta) ou agrossilvipastoril (lavoura-pecuária-floresta), por meio de uso de protocolos específicos que possibilitam o processo de certificação. Seu principal objetivo é garantir que os animais que deram origem ao produto tiveram as emissões de metano entérico compensadas durante o processo de produção pelo crescimento de árvores no sistema” (EMBRAPA, 2016).


2.2 Uso da água

E quanto ao mito de que, para produzir 1 quilo de carne um boi bebe 15 mil (ou mais) litros de água durante a vida, e que essa água poderia ser usada pelo ser humano para outras finalidades? É preciso esclarecer que o boi não bebe essa quantidade de água. Isso é o que chamamos de pegada hídrica (água virtual), ou seja, toda água que faz parte do ciclo de produção para chegar a uma determinada quantidade de produto/alimento (“Água virtual é o volume de água utilizado no processo de produção de bem ou serviço. É aquela água que você consome, mas não vê”). É preciso entender as origens de todo esse volume de água.

Um bovino come pasto e bebe água. A água ingerida é proveniente de rios e córregos, normalmente distantes dos grandes centros urbanos. Além disso, a maior parte da água ingerida é devolvida ao ambiente na forma de urina. O pasto, para crescer, precisa de água, que vem da chuva. E é assim, de maneira simplificada, que se chega ao número 15 mil litros. A água da chuva entra neste cálculo. Entretanto, estimasse que 94% (ou até 98% em alguns casos) da água da pegada hídrica é pluvial, ou seja, seria desperdiçada se o animal não consumisse o pasto (água verde). Sobram apenas 6% de água (900 litros), que de fato é envolvida no consumo pelo animal nas etapas de produção, e tem origem de água subterrânea ou rios e lagos (água azul). Existe ainda outra parcela de água, pequena, mas importante, chamada de água cinza. Esta última está relacionada à poluição da água, principalmente dos efluentes gerados pela indústria.


Ela é medida com base na concentração de fósforo na água, e estima-se em menos de 1% o uso de água cinza na produção de bovinos.

Por outro lado, para produção de alguns vegetais, como legumes ou hortaliças, ou mesmo cereais e frutas em algumas regiões, a maior parte da água utilizada é proveniente de irrigação, ou seja, água azul (rios e lagos). De acordo com a Agência Nacional da Água (ANA, 2021), estima-se que 50% da água fresca do Brasil vão para irrigação, sendo que o plantio de arroz, café, cana, feijão, soja e milho são as principais culturas irrigadas no país. Já, a produção animal é responsável por utilizar apenas 8,4% (em 2020) da água fresca do país.

Então, conclui-se que a produção animal não disputa a água que abastece as cidades porque são processos totalmente distintos.


2.3 Desmatamento e queimadas

A tese de que a produção de animais, especialmente bovinos, é responsável pelo desmatamento e pelas queimadas das florestas, também pode ser facilmente desconstruída. Os animais não se alimentam de matas nativas ou reflorestadas e não são responsáveis pelas queimadas, somos nós, humanos, os responsáveis por isto. O Brasil possui um Código Florestal com legislação rigorosa em relação à preservação do meio ambiente. E é obrigação das autoridades fiscalizar com rigor e fazer-se cumprir a lei em casos de desmatamento e queimadas ilegais, consideradas crime.


Nem sempre uma área desmatada tem como destino servir à produção animal. Mas após a retirada da madeira, a forma mais fácil de lidar com a terra é semear o pasto para criação de gado (o boi é consequência e não causa do desmatamento). Isso não significa que a ausência do consumo de carne vai reduzir o desmatamento, porque ambas não têm relação uma com a outra. Quem desmata ilegalmente vai continuar agindo porque o primeiro produto retirado da terra é a madeira. Depois de desmatada, não havendo mercado para a carne, a terra será usada para outra finalidade. Ainda pode-se destacar o crime de grilagem de terras devolutas (terras públicas sem destinação). Uma área de floresta depois de desmatada, com a falsificação de documentos, passa a ser mais valorizada para a prática ilegal de grilagem.


5.4 Uso da terra

Ainda no que tange ao meio ambiente, a informação de que para produzir animais são necessárias maiores áreas, principalmente de pastagens para os bovinos, e que se não tivesse a produção animal, essa área poderia ser utilizada para produção de outros alimentos, não procede inteiramente.


No mundo existem 5 bilhões de hectares de área sendo utilizada para produzir alimento (vegetal ou animal). Se avaliar apenas a área utilizada para produzir alimentos para os animais (pasto e grãos), são 2,5 bilhões de hectares (50%). Destes 2,5 bilhões de hectares, 2 bilhões (80%) são formados por pasto. Do pasto, apenas 684,9 milhões de hectares poderiam ser convertidos em agricultura para produção de outros alimentos. O restante é formado por “terra marginal”, em que a agricultura não é possível ou é muito difícil, seja por que o solo não é fértil suficiente, existe pouca água, a região é muito íngreme ou muito rochosa, crescendo apenas pasto (Mottet, 2017).

Existe uma informação que relaciona a área utilizada pelos animais (50%) e quanto seus produtos fornecem das calorias (18%) e das proteínas (37%) ingeridas pelos humanos (https://ourworldindata.org/global-land-for-agriculture). Desta forma, parece que a produção animal fica devendo. Mas se levar em consideração que metade da área utilizada para produção animal não poderia ser utilizada para outra atividade agrícola, então a relação correta é que a produção animal utiliza 37% da área agrícola e fornece 18% das calorias e 37% da proteína. Ainda ... falar sobre a produção de subsistência e abate ilegal que pode não ter sido computada.


Um dado interessante, no Brasil, mostra que a pecuária vem constantemente transferindo áreas de pastagens para agricultura ou mesmo devolvendo áreas para a natureza. De 2003 até 2019, cerca de 17,5 milhões de hectares de pastagens foram transferidos para agricultura e outros 53 milhões de hectares de pastagens foram considerados degradados, iniciando a regeneração da vegetação natural (Beefpoint, 2020). Mas isso não é porque a produção animal vem diminuindo, e sim, porque a produção animal está cada vez mais eficiente e pautada por estudos técnicos, produzindo mais carne em áreas menores. Para exemplificar, no mesmo período descrito acima, a produção de carne bovina no Brasil, de acordo com dados do USDA, passou de 7.4 milhões toneladas em 2003 para 10.2 milhões de toneladas em 2019.


Nesta mesma linha, há muitos estudos sobre pecuária regenerativa, que se baseia em integrar animais ao meio ambiente, de forma a regenerar e preservar a biodiversidade, favorecendo o ecossistema. São vários exemplos existentes no Brasil (UOL, 2021).


2.5 Poluição de rios e oceanos

Quanto à produção animal estar relacionada à contaminação de lagos, rios e oceanos, devido às fezes dos animais (eutrofização - descarga de muita matéria orgânica que resulta em poluição biológica das águas), no Brasil, é muito improvável que os dejetos dos animais cheguem em quantidade suficiente em cursos de água ao ponto de causar qualquer tipo de contaminação. Isso é relativamente fácil de ser observado. A qualidade da água dos rios próximos aos centros urbanos é um exemplo. Comparem a qualidade deles aos similares em locais mais afastados dos centros urbanos. A diferença de pureza entre eles reforça a tese de que a responsabilidade pela poluição não tem ligação direta com a produção animal. Vale destacar que quando a produção animal se torna intensiva (confinamentos de bovinos ou produção em granjas de suínos e aves), os riscos de contaminação do solo e água (nitrificação) aumentam e isso deve ser avaliado e controlado.

Por outro lado, e pouco mencionado, é a qualidade do esterco dos animais. Estima-se que quase metade do fertilizante, na forma de nitrogênio, produzido no mundo é na forma de esterco, e esse número chega a quase 100% quando se trata de vegetais orgânicos, onde o fertilizante químico não é utilizado (FAO). A coleta, o armazenamento, o preparo e a utilização do esterco são etapas importantes para garantir a eficiência e a sustentabilidade do seu uso, sem agredir o meio ambiente (Shober, 2014). O esterco pode ainda ser utilizado para produção de energia, na forma
de biogás, presente em algumas fazendas e indústrias no Brasil.


2.6 Balanço de energia

A cadeia de produção da carne inclui a produção de vegetais, os que vão alimentar o animal, que depois será consumido pelo homem. Do ponto de vista energético, os animais são menos eficientes que os vegetais. Isso é um fato da natureza e recebe o nome de cadeia alimentar. O ser humano pode ser um consumidor primário, quando consome um vegetal (produtor), ou secundário, quando consome um animal herbívoro. Em casos mais extremos pode ser um consumidor terciário, quando se alimenta de animais carnívoros. Em cada nível da cadeia alimentar existe perda de energia. Quando o ser humano ingere carne, mais energia foi gasta para produzi-la do que quando nos alimentamos de vegetais.


Novamente é preciso analisar o que os animais estão ingerindo e transformando em carne. No caso dos bovinos, sua dieta é quase que integralmente oriunda de pastos, um tipo de alimento que não conseguimos digerir. O pasto que utilizou energia solar para crescer e depois ser transformado em carne é um alimento altamente nutritivo para os bovinos, mas não para nós. Sendo assim, não é relevante afirmar que houve perda de energia entre o pasto e a carne.


A conclusão é de que consumir e gostar de carne não contribui para a destruição do meio ambiente e do planeta. E que a produção animal pode continuar coexistindo num meio ambiente preservado.

3 - Argumentos quanto a Saúde Humana

Provavelmente você já ouviu falar que comer carne causa algum tipo de problema para saúde. Será que isso é mesmo verdade? Existem informações importantes que merecem ser avaliadas e discutidas.


3.1 Produtos químicos na carne

É comum encontrar notícias na internet de que os produtores aplicam hormônios e antibióticos nos animais para que eles cresçam mais rápido (https://www.ovale.com.br). O que o consumidor talvez não saiba é que a legislação brasileira proíbe o uso de hormônios em animais que são utilizados para produção de carne (MAPA, 2011). Em alguns países, como nos Estados Unidos, a prática é permitida em bovinos (FDA), mas quando utilizado de maneira correta (dose/tempo), não acarreta qualquer problema para saúde humana, pois a quantidade residual na carne fica abaixo de limites aceitos pela FAO/WHO.


Mas nem só as carnes, ou o leite, tem hormônios (naturais ou sintéticos). Por exemplo, um homem adulto normal produz 136.000 nanogramas de estrogênio por dia, enquanto uma mulher não grávida produz em média 513.000 nanogramas por dia. Na carne de bovinos que não receberam hormônio, a quantidade de estrogênio é de 1,0 nanogramas para cada 100 gramas de carne. Já na carne de animais que receberam hormônio, esse valor sobe para 1,4 nanogramas para cada 100 gramas de carne. Assim, mesmo em carne bovina vinda de animais que receberam hormônios, a quantidade de hormônio residual é muito baixa. Por outro lado, produtos vegetais, como farinha de soja, tofu ou amendoim contem fitoesteróis (hormônios), com atividade estrogênica até milhares vezes maior que a carne (Iowabeefcenter, 2011).


Alguns antibióticos são utilizados na produção animal, os quais, no Brasil, são regulamentados e aprovados pelo Ministério da Agricultura. Seu uso pode ser para o tratamento de alguma doença, assim como acontece na medicina humana, ou podem ser utilizados como promotores de crescimento, fazendo com que os animais sejam mais eficientes em transformar o alimento em carne. No primeiro caso, os antibióticos são semelhantes, ou os mesmos utilizados na medicina humana, mas seu uso é em quantidades mínimas e seguindo as recomendações do veterinário, respeitando também os períodos de carência (tempo entre a aplicação e o abate). No caso dos promotores de crescimento, que são utilizados em maiores volumes, eles são compostos de grupos químicos muito diferentes dos antibióticos convencionais. Mas, mesmo assim, seu uso é feito seguindo a legislação e período de carência. Isso reduz muito a chance da carne ter qualquer tipo de resíduo e colocar a saúde da população em risco.

Além de todos os cuidados durante o uso dos antibióticos, o Ministério da Agricultura realiza análises para avaliar se a carne tem resíduo dos antibióticos, e se esses resíduos estão dentro das faixas seguras para consumo. Esse sistema recebe o nome de “Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes”. No último relatório, publicado em 2020, com dados referentes ao ano de 2019, o Ministério avaliou 8712 amostras de carne (bovino - 3358, suíno - 2311 e frango - 3043), quanto à presença de 416 substâncias, tendo encontrado resíduo de antibiótico (Oxitetraciclina, Enrofloxacina e Doxiciclina) apenas em cinco amostras de carne suína (0,22%). O valor limite para os antibióticos é de 100µg/kg e a média, nestas cinco amostras, foi de 286µg/kg de carne. Vale ressaltar que a concentração destas substâncias, quando usadas como medicamentos em humanos, é na faixa de 50 a 100mg por comprimido, ou seja, 1000 a 2000 vezes maior que o limite máximo permitido para cada quilo de carne. Não foram detectadas irregularidades quanto à presença de antibióticos em carne bovina e de frango (MAPA, 2021).


A conclusão é de que a carne no Brasil, de qualquer animal, não tem hormônio (a não ser o hormônio natural que todo ser vivo tem, inclusive as plantas). Os animais podem receber antibióticos, mas a aplicação segue rigorosas normas sanitárias, e assim não colocam em risco a saúde humana.


3.2 Bactérias e parasitas na carne

Outra alegação relacionada à saúde é quanto à carne ser carregada de vírus, bactérias e parasitas. Importante começar dizendo que esses contaminantes biológicos podem estar presentes em qualquer alimento, até nas verduras e legumes. Mas, devido à proximidade biológica entre os animais e os seres humanos, existe também uma maior relação entre os microrganismos e parasitas que podem colonizar seus corpos. Mas isso não quer dizer que a carne estará contaminada.


Lembra-se da etapa de abate que foi discutida anteriormente? No frigorífico, o abate é feito seguindo rígidas normas e protocolos sanitários (RIISPOA, 2017). Os animais são inspecionados, um a um, e isso garante que a carne esteja livre de contaminantes perigosos e seja segura para consumo. Além disso, a carne é um alimento que, normalmente, é consumido após o cozimento (assar/grelhar/fritar), o que a torna ainda mais segura quanto à presença de microrganismos e parasitas.


3.3 Carne causa inflamação

Será que consumir carne causa envelhecimento precoce das células ou causa inflamação no nosso corpo? Alega-se que a carne, quando cozida ou durante a digestão, libera compostos que favorecem o processo inflamatório (óxido de trimetilamina -TMAO, gordura saturada e produtos finais de glicação avançada-AGEs). Mas, o que não se considera, são os níveis seguros ou não destes compostos. Tudo o que comemos ou que está em contato com nosso corpo tem ou pode ter efeito positivo ou negativo na nossa saúde. Um exemplo simples é o oxigênio, tão essencial para nossa vida, mas que é um oxidante potente, causador do envelhecimento das nossas células, podendo acelerar o desenvolvimento de tumores e deprimindo o sistema imune (Wang et al, 2021). Desta forma, mais importante do que dizer que em um alimento existem compostos maléficos, seria dizer qual quantidade separa o bem do mal.


No caso do AGEs e da gordura saturada, os mesmos são encontrados ou podem ter origem também em produtos de origem vegetal. Além disso, o nosso próprio organismo produz essas substâncias, naturalmente. Já o TMAO é formado principalmente após a ingestão de alimentos ricos em colina, como carnes e ovos, mas também presente em alguns vegetais (couve flor, brócolis e óleo de soja). A colina é transformada durante a digestão no estômago e posteriormente é metabolizada em TMAO no fígado. Por outro lado, a literatura científica não foi capaz de esclarecer qual quantidade destas substâncias seria necessária para realmente comprometer a saúde humana. Ainda, nesta mesma linha, existem estudos que mostraram que a ingestão de carne não eleva os marcadores de estresse oxidativo e de processos inflamatórios (Hodgson et al, 2007). E, em alguns estudos, por outro lado, foi verificado que a ingestão de carne reduz os riscos de doenças do sistema nervoso central (Black et al, 2019), ou seja, a carne agindo como um protetor do nosso sistema nervoso.


3.4 Carne causa câncer e outras doenças

Outro ponto importante é a alegação de que o consumo de carne causa diversas doenças, principalmente o câncer, diabetes e problemas cardiovasculares. Não é difícil encontrar trabalhos científicos que correlacionam essas doenças ao consumo de carne (Lippi et al, 2016). Assim como é fácil encontrar trabalhos científicos que dizem o contrário (O´Connor et al, 2017). Em resumo, não existem conclusões precisas quanto à relação de causa e efeito do consumo de carne associado a problemas de saúde, a ainda assim seria dose dependente, como tudo na vida.


Mais especificamente no caso do câncer, a discussão foi exacerbada quando a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, em 2015, publicou um trabalho classificando a carne vermelha como um produto capaz de provocar câncer (Grupo 2A) e classificando os produtos cárneos (ex. salsicha, salame, etc.) como carcinogênicos (Grupo 1) (IARC, 2015). No caso das carnes processadas, o dado publicado dizia que cada porção diária de 50 gramas aumentava o risco de câncer colo retal em 18%. Já, para carne vermelha (ingestão diária de 100 gramas aumentava o risco de câncer colo retal em 17%), esta classificação era reflexo de evidências limitadas de que o produto cause câncer. Mas, a própria entidade considera que a carne é um alimento importante para uma dieta rica e balanceada.


Mas o que esse número, 18%, quer dizer? O aumento de 18% significa que o risco de desenvolver câncer de intestino é 1,18 vezes maior para aqueles que comem 50 gramas de carne processada por dia em comparação com aqueles que não comem nada. Posto dessa forma, o aumento é bem pequeno. Comparando com pessoas que fumam, o risco é cerca de 20 vezes maior de desenvolver câncer de pulmão do que pessoas que não fumam. Expresso em porcentagem, o aumento do risco devido ao tabagismo é de 1.900% (um mil e novecentos por cento).


Um problema potencial de apresentar risco relativo no formato usado pela IARC é que muitas pessoas concluirão incorretamente que, se comessem 50 gramas por dia carne processada, teriam 18% (quase uma em cinco) de chance de desenvolver câncer de intestino. Assim, eles foram enganados.


Um exemplo interessante, feito utilizando dados reais da população do Reino Unido, em relação ao número de casos de câncer de intestino, mostrou que, se um inglês espera viver apenas até os 65, sua chance de ter câncer de intestino é de 2,9% se ele não comer carne processada e de 3,4% se ele comer 50 g/dia, ou seja, 18% de chance a mais (UICC, 2015).


Além do que foi exposto anteriormente, vale ressaltar que muitas das pesquisas que relacionam a carne a problemas de saúde são pesquisas observacionais, ou seja, trabalhos que avaliam uma determinada população ou grupo de pessoas por algum tempo e concluem sobre seus hábitos e sua saúde. Esses trabalhos recebem o nome de Coorte. Entretanto, nestas pesquisas, existem muitos fatores que podem confundir os resultados. Por exemplo, um grupo de pessoas que não come carne ou come pouca quantidade, pode ser também do mesmo grupo de pessoas que se preocupam mais com a saúde, que fazem mais atividades físicas, que evitam fumar e ingerir bebidas alcóolicas. Desta forma a conclusão dos trabalhos pode ser errada.


Veja um exemplo sobre esse ponto acima. Um artigo publicado recentemente na revista American Journal of Clinical Nutrition, traz o título “Consumo de carne e risco de incidência de demência” (Zhang et al, 2021). Mesmo concluindo que pessoas que consomem mais carne processada tem mais chance de desenvolver demência, ou autores declararam que este mesmo grupo de pessoas era formado principalmente por “homens com escolaridade menor, fumantes, acima do peso ou obesos, com baixo consumo de frutas e legumes, e grande ingestão de proteínas ou gordura (incluindo gordura saturada)”. Ainda, neste mesmo trabalho, os autores, sem dar muita ênfase, falam que a carne fresca, não processada, tem efeito protetor contra os casos de demência.


Ainda no quesito carne e saúde, existe a alegação que o consumo de carne, devido a sua alta proporção de gordura saturada, gordura trans e colesterol, poderia ser causador de doenças crônicas, como problemas cardiovasculares e diabetes. Um grupo de pesquisadores publicou recentemente um trabalho que avaliou 59 pesquisas sobre o tema (Schwingshackl et al, 2021). Os autores chegaram a algumas conclusões: que muita gordura trans sintética, não a da carne, faz mal para saúde; que a gordura trans natural, presente na carne, não faz mal para saúde e reduz diabete; que a maior ingestão de gordura saturada não esta associada ao risco de mortalidade, doença cardiovascular, diabetes e câncer (exceto de estômago), mas, por outro lado, reduz o risco de acidente vascular cerebral (derrame).


Se ainda restam dúvidas sobre a relação da carne com sua saúde, procurar um nutricionista pode ser uma boa alternativa. Ele é o profissional mais capacitado para responder sobre o assunto. Evite tomar decisões baseadas apenas na opinião de amigos ou influenciadores do meio artístico e digital.

4 - Argumentos quanto a Economia Doméstica

Quando falamos em carne, normalmente pensamos em um produto caro. Isso é verdade se olharmos apenas o preço por quilo e, mais especificamente, em algumas carnes comparando-as com a de outras espécies. Exemplo disso é o preço da carne bovina (~30,00R$/quilo da carne moída) frente ao frango (~16,00R$/quilo do filé de peito). Assim, temos opções de carnes que cabem no orçamento de muito mais pessoas.


Além do preço por quilo, temos que pensar no valor nutricional que a carne apresenta. Não podemos comparar apenas o preço de uma carne com os preços de vegetais (verduras, legumes e cereais). A carne é um alimento muito mais denso nutricionalmente, servindo de fonte de proteínas de alto valor biológico, vitaminas e minerais essenciais para nossa saúde, também servindo como fonte de energia (WHO-FAO, 2007).


Desta forma, existem opções mais acessíveis dentre as carnes. A comparação entre o preço dos alimentos não deve ser feita apenas pelo preço do quilo.

5 - Argumentos quanto à Fome no Mundo

Os bovinos têm a alimentação baseada em pastagens, o que não acarreta disputa com os alimentos utilizados pelos humanos. No Brasil, cerca de 90% dos bovinos passam a vida toda no pasto, sendo que o restante, apenas 10%, recebem uma alimentação à base de ração nos últimos três a quatro meses antes do abate. Já no caso de suínos e aves, a base da alimentação é de componentes derivados principalmente do milho e da soja.

Falando assim, podemos pensar que, se usássemos todo o milho e a soja que vão para suínos e aves no Brasil, para alimentação humana, não teríamos mais pessoas passando fome. Isso, hipoteticamente, seria verdade se pensássemos apenas no fornecimento de energia, via dieta, para a vida humana e se a fome fosse apenas um problema da falta de produção de alimentos.


Estima-se que 86% de todo volume de alimentos utilizados para produção animal não são os mesmos que poderiam ser utilizados pelos humanos (principalmente pasto e alguns resíduos das indústrias de alimentos). Dependendo do alimento vegetal que esta sendo produzido para alimentação humana, até 38% do volume não será consumido por nós, mas vai servir como alimento para os animais. Para produzir 1 kg de carne bovina ou carne de suínos e aves são requeridos 2,8 kg ou 3,2 kg de alimentos que poderiam ser ingeridos pelos humanos (Mottet, 2017). Importante destacar que no Brasil, para bovinos, esse valor de 2,8kg é ainda menor, pois ~80% do rebanho ficam a vida toda no pasto, e o restante (20%) come ração apenas
100-120 dias.


Quando olhamos mais a fundo as razões da falta de Segurança Alimentar (suprimento de alimento em quantidade e qualidade necessária para o bem-estar nutricional e de saúde), observamos que o problema não é a falta de alimentos, mas a desigualdade social e a má distribuição de renda, aliadas ao desperdício ao longo da cadeia. Segundo o relatório da FAO de 2017, a fome tem como causas os conflitos, clima e desaceleração econômica. Importante lembrar que quando um animal ingere milho ou soja, ele converte isso em carne, e essa carne continua sendo um alimento.


O desperdício de alimentos é um problema sério. Estimasse que 1/3 de todo alimento produzido no mundo é desperdiçado.


Estratificando por grupos de alimentos, o grupo mais desperdiçado é o de frutas e legumes (40%), seguido de cereais e grãos (25%), raízes e tubérculos (19%) e produtos lácteos (11%). O grupo das carnes e produtos cárneos representa apenas 4% do volume de alimentos desperdiçados no mundo. (Dora, 2019)


A fome no mundo é um problema político e social que não está diretamente ligado à escassez de alimentos. Mas se a dúvida paira em torno de que comer carne faz mal para saúde ou causa danos ao meio ambiente, continue lendo o texto.

6 - Argumentos quanto ao Emprego

Existe uma alegação de que o trabalho nos frigoríficos é ruim. No Brasil existem mais de 2100 frigoríficos que trabalham com a etapa de abate (bovinos, suínos e aves), os quais empregam mais de 750 mil trabalhadores. Os que processam carne (por exemplo: salsicha, presunto e salames), geram ainda mais postos formais de trabalho, sem contar a cadeia toda, que inclui ainda açougues, boutiques e supermercados que também são estabelecimentos diretamente ligados ao mercado de carne. Assim, o número de pessoas trabalhando direta ou indiretamente com o setor da carne pode chegar a mais de 7 milhões (BeefPoint, 2021).


Algumas etapas do processo de abate são mais pesadas ou podem ser consideradas insalubres (condições ou métodos de trabalho que exponham os empregados a agentes nocivos à saúde, acima dos limites de tolerância fixados), situações que também estão presentes em outras áreas ou atividades econômicas, por exemplo, na metalurgia e construção civil. Cabe ao Ministério do Trabalho, aos sindicatos dos profissionais da indústria e ao Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho (SESMT) avaliar os riscos e implementar medidas para proteger os trabalhadores. Especificamente para os frigoríficos, em 2013, o Ministério do Trabalho publicou uma Norma Regulamentadora, que estabelece os requisitos mínimos para a avaliação, controle e monitoramento dos riscos existentes nas atividades desenvolvidas na indústria de abate e processamento de carnes e derivados destinados ao consumo humano, visando garantir a segurança, saúde e a qualidade de vida do trabalhador (MTE, 2013).


Assim, cabe dizer que atualmente existe todo um aparato legal para garantir a segurança física e mental dos colaboradores nestes estabelecimentos. Nesta mesma linha, são visíveis as melhorias implementadas nas indústrias em prol do bem estar e segurança dos colaboradores. A automação de processos já é realidade em muitos frigoríficos. Assim, os benefícios parecem superar as dificuldades enfrentadas nas linhas de produção.

Pode-se garantir que são perceptíveis as melhorias promovidas pela indústria com propósito de resguardar o bem estar dos trabalhadores, responsáveis pelo fornecimento e a qualidade dos alimentos.

7 – O que existe além da carne?

Existe um ditado popular que diz: “do boi se aproveita tudo, até o berro”. Mesmo já tendo ouvido falar, nem sempre paramos para pensar o que isso realmente quer dizer, e como isso é importante quando falamos de produção sustentável.


Quase a totalidade das estatísticas, se não todas, quando avaliam os possíveis efeitos ambientais negativos da produção de carne, se esquecem de mencionar que quando um animal é abatido, além da carne, muitos outros produtos são obtidos e servem de matéria prima para mais de 40 segmentos industriais (cosméticos, tintas, fertilizantes, rações, construção, medicamentos, dentre outros).


Usando um bovino como exemplo, como peso vivo de 500 kg, teremos ao final de todo processo cerca de 40% de carne sem osso, ou seja, 200 kg que vão ser utilizados para alimentação humana na forma de cortes cárneos (alto valor agregado). Mas para alimentação humana ainda temos que contar alguns miúdos, como o fígado, coração, língua e bucho. Já, fora da alimentação humana, temos o couro (bolsas, estofados e roupas), as farinhas (carne, ossos e sangue) que servem para alimentação animal, como suínos, aves, cães e gatos, e o sebo (gordura) que pode ser transformado em biodiesel ou sabão. Esses são alguns exemplos de coprodutos que são aproveitados, os que apresentam maior rendimento, mas a lista é muito grande. Você provavelmente convive diariamente com produtos que tem algum ingrediente, ou componente, que teve origem no frigorífico e não sabia.

8 - Argumentos quanto ao Uso Animal

Talvez o argumento mais complexo dentre os previamente discutidos. Complexo, pois envolve a discussão quanto às questões éticas e morais da relação homem-animal. Alvino Mozer (Mozer, 1992), filósofo, traz uma questão muito importante sobre o tema: “Tem o homem alguma obrigação ética, ou dever moral, para com os animais?”. Não cabe a este texto responder a essa pergunta, pois moral e ética são assuntos filosóficos e não técnicos.


Fato é que para existir o consumo de carne, precisa existir o abate, seja de animais de produção ou caça (com exceção da carne cultivada em laboratório, mas que não esta em discussão neste artigo). Agora sim, “como a produção e abate pode ser mais ético e moral?” Esta é uma questão que pode ser discutida de forma técnica.


Nós somos fruto do nosso meio. Os seres humanos são animais onívoros por natureza (Watts, 2020). Vários estudos sobre a evolução humana, que avaliaram a anatomia, fisiologia e o comportamento dos nossos ancestrais, provaram que quando o homem começou a comer carne e inseriu definitivamente a carne na sua dieta, houve um salto na evolução da espécie, principalmente em relação ao desenvolvimento cerebral (Zink e Lieberman, 2016).


No início os animais eram caçados. Importante destacar que isso existe ainda hoje em algumas comunidades (por exemplo. Indígenas e inuítes/esquimós). Depois de um tempo, o ser humano passou a domesticá-los, criando animais para atender suas necessidades, dentre elas o consumo de produtos de origem animal, tradição que se mantém até hoje, mas agora de forma intensificada. A população cresceu e se urbanizou. Não temos como produzir animais, para consumo, na cidade. Alguém precisa produzir no campo, para o consumo ocorrer no meio urbano.


A forma de criação dos animais é muito diversificada. Existem modelos em que o bem-estar animal ainda precisa ser aperfeiçoado, principalmente em sistemas intensivos. Entretanto, temos modelos modernos em que os animais são criados em um ambiente livre de qualquer tipo de desconforto, em que podem expressar seus comportamentos e interagir livremente com o meio ambiente e seus pares. As fazendas podem ter seu sistema de produção checado e certificado, e a carne recebe um selo que garante a procedência e as boas práticas de manejo (por exemplo certifiedhumanebrasil.org).


Após a criação, a próxima etapa é o abate. No modelo antigo, de caça, não existem cuidados com o manejo ou “práticas humanizadas de abate”. Neste caso, o animal normalmente não tem uma morte instantânea, o que causa dor, agonia e sofrimento. Entretanto, para alguns estudiosos, a caça, onde o caçador dispara contra a um animal, na natureza, e este tem uma morte instantânea, seria considerada uma forma ideal de abate, pois o animal esta em seu habitat natural e não houve interação homem/animal. Atualmente, os processos evoluíram e existem legislações e protocolos cada vez mais completos e complexos, que ajudam a minimizar ou mitigar por completo a dor e sofrimento no momento do abate. Neste sentido, a Sociedade Mundial de Proteção Animal, juntamente com o Ministério da Agricultura do Brasil, desenvolveram normas para o abate humanitários de animais de açougue, chamados de STEPS (MAPA, 2013).


Assim, percebe-se que existe uma evolução, modesta, mas presente, que a produção animal se preocupa em evitar o sofrimento do animal durante a sua vida na fazenda ou a dor que sente no abate. Informações sobre avanços em bem-estar animal e sobre abate humanitário ajudam a compreender melhor o tema. A cada dia entendemos e aprendemos mais sobre como criar e abater os animais para que possamos continuar comendo carne, honrando e respeitando suas vidas.

Conclusões

A escolha pessoal de um estilo de vida ou mesmo de uma alimentação deve ser respeitada. Incentivar ou influenciar uma pessoa a seguir a sua escolha deve estar pautado na ciência e na ética com a verdade. Para isso, estudar e conhecer por completo o assunto passa a ser uma obrigação.


Quando falamos do consumo de carne, o assunto pode vir carregado de informações falsas ou incompletas, muito bem escritas e apresentadas, seja no âmbito econômico, meio ambiente ou na saúde, passando uma impressão de verdade incontestável.


Assim, a produção de carnes vem sendo constantemente atacada e sendo considerada culpada pelos problemas do mundo moderno. O sistema não é perfeito, possui falhas, como qualquer outro segmento, mas está longe de ser o culpado por todos esses problemas.


Estamos todos preocupados com a sustentabilidade do planeta, assim como a maioria dos produtores rurais, os quais dependem da terra para tirar o seu sustento. “Produzir e preservar” é o que move a produção moderna e vai garantir o nosso futuro e das próximas gerações.


Uma alimentação acessível, completa, balanceada e saudável é o que todos precisam e deveriam ter. A carne tem um papel importante neste cenário, pois é um alimento nutricionalmente denso e balanceado em seus macro e micronutrientes. Seu consumo pode ser reduzido ou ela pode ser substituída, mas isso tem que ser feito com cautela e requer cuidados especiais. Cada pessoa deve avaliar os riscos e benefícios em reduzir ou remover a carne da sua dieta e de seus familiares, principalmente quando se trata de crianças e jovens em desenvolvimento e de populações carente de recursos para obter acompanhamento de profissionais competentes no ramo da nutrição humana.

Professor Sérgio Pflanzer

Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp

Abril de 2021.

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